
Coleção Fotográfica Curt Nimuendajú do Museu Nacional UFRJ
A futura Coleção Fotográfica Curt Nimuendajú do Museu Nacional UFRJ está sendo gestada sob o reconhecimento da memória como um direito inalienável e soberano dos povos originários. Mais do que meros registros do passado, esses fragmentos iconográficos constituem territórios em disputa, essenciais para que as comunidades detentoras, apoiadas em sua história, fortaleçam seus processos de territorialização e a expressão de suas identidades. Nossa proposta reconhece que o direito dessas comunidades sobre as fotografias se sobrepõe a qualquer outro interesse, tratando a memória como um elemento ativamente construído no presente, visando possibilidades auspiciosas de futuro para esses povos.
Ao mesmo tempo, a coleção reafirma a importância da obra de Curt Nimuendajú para as Ciências Sociais, a Etnologia e o campo das Artes, consolidando o acervo como um conjunto de raros exemplares da iconografia histórica e da fotografia documental. A coleção constituirá, portanto, manifestação inequívoca de nossa brasilidade — um conceito multifacetado que busca valorizar as alteridades e as diversas identidades que compõem a cultura brasileira.
A iniciativa fundamenta-se ainda no conceito de guarda solidária, uma estratégia de preservação da memória que busca romper com as práticas convencionais do colecionismo colonialista. Diferente de modelos que excluem a participação dos grupos retratados, a guarda solidária propõe uma aproximação entre o campo acadêmico, as instituições de memória e as comunidades detentoras, proporcionando a estas o protagonismo na gestão participativa dos bens culturais salvaguardados.
Ao associar a relevância acadêmica, artística e cultural à estratégia de guarda solidária, o projeto buscará ampliar seu alcance e eficácia. Procura-se, assim, sensibilizar diferentes setores da sociedade para integrar redes colaborativas de apoio voltadas ao patrimônio cultural. Isso inclui a articulação de mecanismos de fomento para garantir que os recursos captados sustentem tanto o aparato técnico-administrativo do projeto quanto possam ser revertidos como subsídios diretos às comunidades detentoras e seus representantes.
Os pilares da implementação da coleção incluirão:
- Repatriação Virtual: O projeto buscará remontar a organicidade dos registros a partir das trajetórias de Nimuendajú para identificar os descendentes dos grupos retratados. Isso permitirá estabelecer interlocução direta com os representantes indígenas, de modo a proporcionar a “repatriação virtual” dessa memória.
- Autoetnografias: A organização da coleção propõe a substituição da lógica exógena e ocidental de catalogação por descrições etnográficas construídas pelos próprios representantes das comunidades. A partir de suas categorias nativas de pensamento na interpretação e classificação das obras, assegura-se que as imagens reflitam suas próprias visões de mundo.
- Agência política e sustentabilidade: A coleção instrumentaliza-se como um ativo simbólico e político nas reivindicações identitárias e territoriais das comunidades detentoras. O planejamento inicial apoia-se no financiamento via Lei Rouanet, através do projeto “AÇÕES DE PRESERVAÇÃO DIGITAL: O olhar de Curt Nimuendajú sobre os povos originários do Brasil” (PRONAC: 249597). A implementação da coleção permitirá a prospecção recorrente de novos recursos voltados não apenas à proteção deste conjunto fotográfico, mas a futuras ações que apoiem a sustentabilidade desses grupos por meio da valorização de seus bens culturais.
- Memória como manifestação da brasilidade: Embora priorize o direito originário, a coleção também será oferecida à sociedade como uma expressão de brasilidade, valorizando as alteridades que formam a identidade cultural do país e servindo como um recorte raro da fotografia documental para as artes e as ciências.
Dessa forma, a Coleção Fotográfica Curt Nimuendajú do Museu Nacional/UFRJ almeja ser não somente um repositório institucional, mas um instrumento dinâmico de agência política voltado à visibilidade dos modos de vida e saberes das comunidades originárias.

